Laos, Vang Vieng “o perrengue”

Queria aventura?

Minha viagem envolvia muitas cidades e pouco tempo então decidi fazer todos os trechos por via aérea (13 vôos), exceto Vang Vieng, onde não é possível chegar de avião. Lí na internet que a viagem duraria cerca de 4hs. Há 2 dias eu estava ensaiando deixar a charmosa Luang Prabang. Como sabia que as condições da estrada não eram das melhores, escolhi o que diziam ser a melhor das opções para essa viagem, o transporte VIP, que nada mais é do que um ônibus de viagem comum. Também tinha opção de van ou ônibus local (racicínio: se até ônibus local chega, noVIP deve ser fácil).

Ao entrar no ônibus era inevitável observar o mal estado de conservação. Algumas crostas de poeira, além das investigações despendidas para alguns fins: o banco poderia ser rebaixado, desde que você precionasse um botão bastante  enferrujado (coisa pra se pensar). Duas cadeiras na minha frente, as meninas dedicaram um tempo significativo tentando levantar o braço do banco que supostamente seria possível, mas não conseguiram.

Dormir não era fácil. Com frequência o ônibus dava fortes trancos tentando recuperar a aceleração, mas o motor quase morria, ou morria mesmo.

Depois dos primeiros 20 minutos de viagem, eu fazia planos de como poderia chamar um táxi pra me levar de volta. Decidi ficar, mas já era evidente que não seria um trajeto fácil. A estrada ora era asfalto, ora pedrinhas ou terra. Claro que não ví  sinalização ou qualquer tipo de iluminação por lá, era breu total.

Desde os primeiros 20 minutos de viagem, além do ônibus morrer, quando isso acontecia, desciam o motorista e também o ajudante dele (sim, ele tinha um), para mexer no motor. E descobrir que o ônibus estava quebrado foi uma benção. Explico: eu não conseguia entender porque o ônibus parava tanto e demorava tanto em cada parada (considere 15 minutos parado para cada 10 andando). Pensava se estavam pegando alguém ou esperando o quê.

Perguntei pra algumas pessoas, mas quem falava inglês não sabia. Eram 2 grupos: os que falavam inglês e os que falavam Laos, ninguém falava os 2. Já inquieta e contrariando o gesto do ajudante que dizia “no, no”, decidi descer. Aí ví alguns homens com lanternas, mexendo no motor e bastante nervosos, gritando um pouco enquanto discutiam o problema em questão, penso eu que esse era o assunto.

Finalmente o ônibus parou NO MEIO DO NADA (dessa vez eu me senti muito bem escondida no mapa) e eu descobri que o plano do táxi não teria sido má ideia ou exagero meu. O lugar, como toda estrada que percorremos, tinha nenhuma luz. O motorista e o ajudante abriram o compartimento das malas e, enxergando mal, cada passageiro procurava pela sua. Até que finalmente chegou outro ônibus e ele era beeeeem mais novinho. Eu tinha certeza que nesse novo bus daria tudo certo, afinal essa era minha única opção.

E deu mesmo. O trajeto é bem complicado, muitas curvas e estradas péssimas, mas deu certo.

Interessante é que na agência que comprei a viagem, fui informada que tinha banheiro e jantar no ônibus, mas não ví nenhum dos dois itens passeando por lá. Tudo que foi distribuído logo na entrada do ônibus foi uma água mineral e lenço umedecido.

A viagem que deveria durar 4hs, durou 10hs! Vocês podem calcular a situação da estrada e do ônibus….

E só pra terminar a aventura, quando finalmente o ônibus chegou em Vang Vieng, ele não parou numa rodoviária, mas na rua mesmo, no meio de algum lugar perto da cidade, e o ajudante, sem olhar nos olhos de ninguém, gritava Vang Vieng e acenava chamando com a mão.

Tinha um tuktuk nos esperando, mas alguns alberguistas tentaram arriscar sair dalí sozinhos, se equipando com capacetes que tinham lanternas. O motorista do tuktuk viu a cena e deixou rolar, como se já soubesse o resultado (e a gente esperando sem a menor chance de imaginar como caberia mais gente, a não ser pendurados). E ele tinha razão: passados 15 minutos, os pontinhos de luzes das lanternas dos alberguistas estavam voltando e criativamente se intalando no tuktuk.

Eram pouco mais de 5 da manhã quando o tuktuk (mais lotado que eu já ví ou poderia imaginar na vida, e aqui não tem exageros), me deixou no hotel que eu havia reservado e inclusive pago toda a diária pela internet, através do site do próprio hotel (!). Ele estava recomendado no Lonely Planet e era o mais caro (nada aqui é exatamente caro) que tinha por lá.

O homem da recepção estava dormindo e logo acordou, mas não adiantou muito porque ele não falava nada em inglês além de “no sapiqui”. Eu, feito louca e cansadinha da viagem, praticamente gritava as palavras: room! Keys! Sleep! Cheguei a levar ele até a porta de um bangalô tentando explicar o que eu queria, depois de já ter me deitado no sofá da recepção dizendo sleep, please.

Até que tive a melhor de todas as idéias: apontei para o telefone dizendo english e, simples assim, ele entendeu que deveria ligar para alguém que falasse inglês. Expliquei o quanto eu queria meu quarto que estava pago, confirmado e inclusive eu havia deixado avisado que chegaria pela madrugada, ou seja, estava pagando a diária quase que por um bom banho, mas principalmente, para ser bem recebida durante a madrugada. O atendente do telefone explicou que o hotel estava LOTADO! Claro que a essa altura ele conseguiu me deixar bem nervosa e ele sugeriu me transferir para um outro hotel que ele tem. Explicou que esse segundo era mais simples e ele poderia me ressarcir a diferença no dia seguinte, se eu apresentasse a confirmação de reserva. E eu tinha outra opção?

Fiquei aguardando no deck do hotel, lindo, de frente pro rio, vendo o amanhecer. Até que chegou uma moto e descobri que esse era o meu transfer!?! Como por aqui tem jeito pra tudo, o piloto levou a mala (que não era pequena), na frente dele (nem preciso explicar que ele mal podia mexer os braços ou ver alguma coisa) e eu fui na garupa.

Ufa! O outro hotel era ótimo também, adorei.

Fui até Vang Vieng pra fazer tubing,que significa deitar numa bóia e ser levado pela correnteza do rio. Fui até a agência de tubing, comprei o passeio, fui direcionada até um tuktuk que simplesmente me levou e me deixou na beira do rio. Ninguém por alí, além de muitas árvores e muita natureza. Na hora perguntei a ele cadê a empresa de tubing? Fiquei boba ao descobrir que na verdade, você paga o aluguel de uma bóia pra descer o rio e só…. tudo que o mocinho dizia era me orientar a sentar na bóia e deixar o rio levar…e ainda acenava com a mão dizendo um traumático “go, go…”. Ok, isso me pareceu absurdo, mas eu vim até aqui pra isso (e foram 10hs de viagem!), então lá vou eu!

Após mais de uma hora rio abaixo, comecei a ficar beeeem preocupada. Avistei uma pessoa nas margens do rio e pedi ajuda para chamar um transporte, para que eu pudesse voltar para a cidade. Ele não falava inglês, mas entendeu o que eu queria e disse que não havia por alí, eu precisaria terminar o percurso. Foi um alívio descobrir que eu ainda não tinha passado do fim, ufa! A essa altura, eu tive muito medo de me perder naquele rio e naquela mata. Éramos eu, o rio e as margens, mais ninguém!

Finalmente avistei um barquinho motorizado e comecei a gritar “help!”. Negociei com o dono do barco pra ele me levar até a cidade pois eu já não queria mais fazer o percurso até o fim, achei perigoso perder a tal faixa que indicaria o final. Ele me cobrou 3 vezes o valor do aluguel da bóia, ainda bem que tudo por aqui é barato. E eu não discuti, nesse caso, valia!

Tenho certeza que fiz um tubing bastante diferente do comum. Quando o tuktuk me deixou no rio e eu ví que não tinha ninguém, ele explicou que o rio lota, mas sempre na parte da tarde. Eu não lí isso em lugar algum e também não fui avisada pelo hotel, nem pela agência onde aluguei a bóia. Mas como no final deu tudo certo, posso dizer que ao menos o percurso que eu fiz foi fantástico porque o silêncio era gigante e  o lugar lindo. Dizem que na parte da tarde, o rio fica lotado principalmente de jovens bêbados que param a bóia nos bares que tem nas margens do rio e continuam o caminho cada vez mais “alegres”.

Ponderei muito a visita a Vang Vieng porque eu não curti a ideia de beber e descer correnteza abaixo, nem mesmo estar no meio dessa galera mais adolescente, como lí na internet. Foi sim assustador descer o rio sozinha, mas foi de uma paz incrível (até a primeira hora enquanto eu conseguia curtir, pois depois comecei a ficar muito preocupada).

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